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Quarta, 24 de Dezembro 2008

Euclides da Cunha perde pessoas queridas da comunidade

Por: José Dilson - euclidesdacunha.com
 

Nesta semana que passou, a cidade de Euclides da Cunha perdeu duas pessoas simples da sociedade, com serviços prestados e detentoras de muitas amizades nos mais diferentes aspectos.

Primeiro foi dona Gemira Costa Santos “dona Gemira”, que faleceu aos 99 anos de vida, vítima de AVC (Acidente Vascular Cerebral), depois de convalescer por algumas semanas, em sua residência.

Pessoa de temperamento bastante calmo, dona Gemira, por muitos anos, vendeu doces, bolos, cocada, arroz-doce, manga espada colhida no enorme quintal de sua casa, e tudo numa época muito boa, onde frutas e iguarias podiam ficar expostas na janela e os fregueses chamavam a dona da casa para comprar, quando a mesma se encontrava cuidando de outros afazeres domésticos.

Na venda ao lado da casa, o então esposo (in memória) Pedrinho Campos, comerciante com fama de valente, que não dispensava um charuto fabricado no Recôncavo Baiano, vendia secos e molhados para seus clientes, muitos com residência no meio rural.

‘Seo’ Pedrinho Campos gostava de cultura popular e reservava um cantinho da venda para poetas populares e violeiros em dupla que cantavam desafios e juntavam no local, dezenas de pessoas. Tocadores de pífanos e zabumba também tinham espaço garantido.

Dona Gemira cuidava da educação dos filhos, entre eles, Emílio, Antônio, Eliezer, Aidil e Aída, estes com nível superior completo (advogado, médica), além de Aidée, que nunca se separou da companhia dos pais, e cuidava com muito carinho da mãe, principalmente, depois que dona Gemira ficou viúva e as irmãs Aida e Aidil foram morar em Salvador, além de Eliezer, - que já morava na capital baiana, onde estudava e fez bacharelado em Direito, residem e trabalham.

O carinho dos filhos e netos não permitia que o aniversário natalício passasse em branco e Juntos promoviam lauto almoço com a presença de muitos amigos e amigas da família, sempre animado com o forró de Zé Cirilo e convidados, enquanto não chegava o momento de cantar a tradicional música Parabéns, Para Você, e dona Gemira apagar as velinhas, como aconteceu em março deste ano, quando completou 99 anos de vida.

A família já estava planejando uma grande festa de aniversário programada para março de 2009, quando a matriarca completaria um século de vida. Infelizmente, o AVC também interrompeu os planos de uma grandiosa festa familiar no próximo ano.

Fã de Roberto Carlos, dona Gemira já havia escolhido as músicas que deveriam ser tocadas e cantadas quando fosse transportada para a morada final. Um carro-de-som foi contratado pela família, a quem fizera a recomendação de ter um acompanhamento animado com as músicas do rei, e o seu desejo foi realizado.

Um imprevisto impediu que o site euclidesdacunha.com registrasse com imagens, o cortejo de despedida de uma pessoa maravilhosa que, impossibilitada de caminhar, ficava a contemplar da janela de sua casa, na Av. Ruy Barbosa, e receber o cumprimento, o abraço, o carinho dos amigos e amigas que passavam por lá, ou procuravam a filha Aidée que, com suas mãos hábeis costuram lindas roupas.

Outra pessoa que deixou saudade, foi José Hélio de Almeida (Pitão), - que na fotografia aparece ao lado (D) do irmão Élson, também vítima de AVC, que nos deixou nesta última quinta-feira (18), depois de ficar por quase seis meses internado para tratamento no Hospital Santa Izabel, em Salvador.

Pitão era uma pessoa de senso crítico aguçado, irônico e com muita história para contar, principalmente, do período da infância, quando foi aluno da então Escola Paroquial São José, vendedor de jornais e revistas trazidas para Euclides da Cunha pelo tio Antônio Souza Lima (Antônio de Elias ou ‘seo’ Antônio da Casa Só Livro) e, mais tarde passou a responder pela Casa Lotérica Boa Sorte.

Pitão era filho de dona Etelvina, mas que a maioria das pessoas a conhecem como “loló”, atualmente, com 95 anos. As irmãs professoras Zenaide e Walmira Carmezim são responsáveis pela Escolinha Santo Antônio, uma excelente escola infantil e de ensino fundamental da 1ª a 4ª séries.

Élson Souza Lima (Elsinho), é sargento da reserva do Exército Brasileiro, pessoa muito querida na caserna onde serviu na I Companhia de Infantaria, em Paulo Afonso-BA, onde reside e trabalha como produtor de vídeos, casado com a professora Ivone e pai de duas filhas maravilhosas Sofia e Samira. Uma família pequena, porém, bem estruturada e harmônica.

Pitão era uma daquelas pessoas que entram para o anedotário e o folclore da cidade, pelas suas posições ideológicas, envolvimento com os políticos, críticas, ações e reações inesperadas, influência junto às autoridades, principalmente, aquelas que gostavam de ler livros, jornais e revistas sem ter que desembolsar alguns cruzeiros, cruzados e depois reais, a depender da época daqueles planos monetários malucos do Governo Federal, até chegar ao Plano Real. Era um grande orador.

Desportista fervoroso, torcedor do Esporte Clube Bahia, Vasco da Gama e Santos, - Pitão era santista pelezista de quatro postados e, em Euclides da Cunha participou da fundação e foi dirigente do Sport Club Euclidense, o mais querido e popular time de futebol da cidade, fundado por Nouzinho do Bujão, Delço Matias, Antônio Costa, Vavá sapateiro, Caboclinho, Charlão, entre tantos desportistas, na década de 60.

Como árbitro de futebol, foi protagonista de vários episódios que estarreceram torcedores e entrou para o anedotário e folclore do futebol euclidense, e tudo em defesa do time do seu coração que, quando perdia, Pitão simplesmente desaparecia da cidade, para fugir da gozação dos adversários.

Certo dia, ao apitar um dos jogos do campeonato euclidense, validou um gol que não aconteceu: o jogo estava muito difícil para o time que torcia e aos quarenta minutos do segundo tempo, ao perceber que a partida terminaria em zero a zero, - resultado que não favorecia o seu time de coração, não titubeou e validou como gol, uma bola que o atacante de seu time chutara de fora da grande área, no travessão do time adversário.

Foi um bafafá enorme causado pela torcida que viu o time prejudicado com a marcação de um gol cuja bola não tocou o fundo da rede e nem ultrapassou a linha de gol. O campo não tinha alambrado e a torcida ficava à beira do “gramado” e às vezes, até dentro de campo mesmo.

Um torcedor mais afoito juntou-se aos jogadores do time prejudicado e em voz uníssona, como num coral bem afinado, disse ao árbitro: “Pitão, a bola não entrou. Então, por que você deu o gol?”.

A resposta estava na ponta da língua: “eu vi que não entrou; porém, o lance foi tão bonito que eu resolvi premiar como gol. O árbitro aqui sou eu, já marquei não volto a trás, pois correrei o risco de ficar desmoralizado perante a torcida.” Respondeu.

Revoltados com a atitude do árbitro, torcedores do time prejudicado e alguns jogadores partiram para cima e foram surpreendidos com mais uma atitude inusitada do mediador do tumultuado jogo de futebol, quando, inesperadamente, Pitão enfiou a mão no short que usava e sacou de uma pistola de dois canos, calibre 22, também conhecida como dois tiros e uma carreira, pois era municiada apenas, por dois projéteis.

Com a pistola na mão, gritou para os possíveis agressores: “venham felas da puta pra vê o que o pitãozinho da goméia é capaz de fazer!” Acho que até hoje tem torcedor correndo por ai. E como já passava de quarenta minutos do segundo tempo, a partida foi dada como encerrada por falta de segurança e prevaleceu o resultado, segundo o regulamento do campeonato.

Fã de Waldick Soriano, cantava as músicas quase todas de seu ídolo, bem assim Nélson Gonçalves. A cerveja era sua bebida predileta e quando depois de ingerir alguns copos, enrolava os companheiros fingindo beber ao levar o copo à boca, porém, apenas cheirava a bebida.

Pitão tinha os bares certos que gostava de tomar uma cervejinha, e não costumava passar de duas garrafas, sempre divididas com os amigos. Nunca freqüentava ambientes com muita gente e muito barulho. Ao chegar pedia ao garçom ou proprietário do bar, boteco, etc, da seguinte maneira: “psiu, tem uma cervejinha bem gelada para o pitãozinho?... Então, traga logo.” Era uma figura sensacional. E quando chegava alguém que ele não simpatizava muito, a demora era pouca no local. Às Vezes, nem terminava de tomar a cerveja toda.

A tática de cheirar a bebida ao invés de bebê-la era, na realidade, uma técnica que usava para ouvir dos companheiros que gostavam de uma cervejinha, segredos e confidências que só acontece quando o cara perde a noção dos fatos e faz revelações que estão guardadas no subconsciente. Ai Pitão ficava sabendo de muitas coisas que aconteciam em sociedade e eram reservadas apenas, para algumas pessoas.

Irônico e divertido, - somente quando bebia ou fingia beber, ao ser apresentado a um jogador de futebol amador, pelo amigo Braz, - outra figura mestre em gozação, perguntou o nome do apresentado e teve como resposta: Bunda. Chamam-me de bunda, respondeu o jovem.

Sarcástico e muito crítico respondeu com a mão no queixo e três dedos à frente do nariz: Bunnnnnda... - e como se estivesse escondendo o riso, completou: Hummm... é bastante sugestivo o seu nome. Detalhe; o rapaz tinha quadris e nádegas avantajados. Ninguém agüentou e a gargalhada foi geral.

Responsável, há mais de 15 anos respondia pela direção da Casa Lotérica Boa Sorte, e quando o tio Antônio, que viajava semanalmente a negócios, para Salvador e Feira de Santana, supria a ausência do mesmo, na Casa Só Livro.

Acordava bastante cedo e também ia dormir nas primeiras horas da noite. Político, não perdia oportunidade de mostrar que tinha poder de influenciar junto a alguns políticos e autoridades, principalmente, aquelas que liam livros, revistas e jornais e até saboreavam uma maçanzinha, gratuitamente.

Nas campanhas políticas e até para direção de clubes de futebol e da Liga Desportiva Euclidense atuava como lobista junto aos dirigentes e associados com direito a voto. Fazia isso, quando simpatizava com o candidato e sempre foi exitoso em sua missão. Tinha oratória fácil e eloqüente, por isso costumava discursar nos comícios e nas reuniões que participava.

Supersticioso, fazia o sinal da cruz quando cruzava com um gato preto, não passava debaixo de escada e, ao adentrar a lotérica e na Casa Só Livro, o fazia sempre com o pé direito na frente.

Gostava das coisas do candomblé, era, segundo ele, protegido dos orixás Ogum (São Jorge guerreiro) e Oxum (Nossa Senhora da Conceição)... e até fazia saudação e reverência em linguagem sincrética aos amigos simpáticos às divindades e deuses africanos.

Às vezes nervoso, xingava todo mundo, mas logo se arrependia e fazia agrados aos supostos ofendidos. Reservado, não gostava de ficar em ambiente com muita gente e tumultuado. Arredio, quando menos se esperava, Pitão já havia caído fora.

São tantos os causos atribuídos a José Hélio de Almeida, que não poderia encerrar esta matéria que, com certeza vai fazer Ariosvaldo Nascimento (Lelê), - um velho amigo de infância que há muitos anos reside em Tanquinho-BA, e veio ao seu sepultamento, rir pra valer, juntamente com Tonho padaria.

Para encerrar com mais um caso verdade, no sepultamento de um homem bastante forte, as pessoas que conduziam o caixão tiveram dificuldade para subir a ladeirinha que dá para o cemitério municipal, pois estavam cansadas e a alça da urna funerária apertava bastante o punho e quem já havia segurado o caixão não queria pegá-lo novamente.

O defunto pesou bastante e o caixão começou a guinar para o lado esquerdo, como se não quisesse seguir para o destino final. Inconformado com aquela situação, Pitão - que já havia tomado umas cervejinhas aproximou-se do caixão e disse: “não adianta querer voltar. Você vai levar terra nos peitos, daqui a pouco!”

Aquele momento de tristeza e dor transformou-se em risos e o caixão pareceu ter ficado mais leve e chegou sem dificuldades ao destino final.

Nesta terça-feira, familiares e muitos amigos e amigas foram à Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição e participaram da celebração da missa de sétimo dia de ação de graças pelas almas de dona Gemira e Pitão.

Às pessoas amigas que nos deixaram (Gemira Santos Costa – dona Gemira, e José Hélio de Almeida - Pitão) que, na mesma semana passaram para o plano superior, cada uma com a sua história para o engrandecimento de nossa cidade, pelo trabalho, contribuição social, cultural, etc.

Aos familiares amigos Aidée, Eliezer, Emílio, Antônio, Aidinha e Aidil, (da parte de dona Gemira) e dona Loló, Walmira, Zenaide, Élson (da parte de Pitão), a homenagem do site euclidesdacunha.com, as duas grandes almas que agora nos olham de lá de cima, em um bom lugar.

Agradecimento especial ao sargento EB Élson Souza Lima, pelas imagens de arquivo cedidas gentilmente.

 

 
 
 
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