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Nesta semana que passou, a
cidade de Euclides da Cunha perdeu duas pessoas simples da sociedade, com
serviços prestados e detentoras de muitas amizades nos mais diferentes
aspectos.
Primeiro foi dona Gemira Costa Santos “dona Gemira”, que faleceu aos 99
anos de vida, vítima de AVC (Acidente Vascular Cerebral), depois de
convalescer por algumas semanas, em sua residência.
Pessoa de temperamento bastante calmo, dona Gemira, por muitos anos,
vendeu doces, bolos, cocada, arroz-doce, manga espada colhida no enorme
quintal de sua casa, e tudo numa época muito boa, onde frutas e iguarias podiam
ficar expostas na janela e os fregueses chamavam a dona da casa para
comprar, quando a mesma se encontrava cuidando de outros afazeres
domésticos.
Na venda ao lado da casa, o então esposo (in memória) Pedrinho Campos,
comerciante com fama de valente, que não dispensava um charuto fabricado
no Recôncavo Baiano, vendia secos e molhados para seus clientes, muitos
com residência no meio rural.
‘Seo’ Pedrinho Campos gostava de cultura popular e reservava um cantinho
da venda para poetas populares e violeiros em dupla que cantavam desafios
e juntavam no local, dezenas de pessoas. Tocadores de pífanos e zabumba
também tinham espaço garantido.
Dona Gemira cuidava da educação dos filhos, entre eles, Emílio, Antônio,
Eliezer, Aidil e Aída, estes com nível superior completo (advogado,
médica), além de Aidée, que nunca se separou da companhia dos pais, e
cuidava com muito carinho da mãe, principalmente, depois que dona Gemira
ficou viúva e as irmãs Aida e Aidil foram morar em Salvador, além de
Eliezer, - que já morava na capital baiana, onde estudava e fez bacharelado
em Direito, residem e trabalham.
O carinho dos filhos e netos não permitia que o aniversário natalício
passasse em branco e Juntos promoviam lauto almoço com a presença de
muitos amigos e amigas da família, sempre animado com o forró de Zé Cirilo
e convidados, enquanto não chegava o momento de cantar a tradicional
música Parabéns, Para Você, e dona Gemira apagar as velinhas, como
aconteceu em março deste ano, quando completou 99 anos de vida.
A família já estava planejando uma grande festa de aniversário programada
para março de 2009, quando a matriarca completaria um século de vida.
Infelizmente, o AVC também interrompeu os planos de uma grandiosa festa
familiar no próximo ano.
Fã de Roberto Carlos, dona Gemira já havia escolhido as músicas que
deveriam ser tocadas e cantadas quando fosse transportada para a morada final.
Um carro-de-som foi contratado pela família, a quem fizera a
recomendação de ter um acompanhamento animado com as músicas do rei, e o
seu desejo foi realizado.
Um imprevisto impediu que o site euclidesdacunha.com registrasse com
imagens, o cortejo de despedida de uma pessoa maravilhosa que,
impossibilitada de caminhar, ficava a contemplar da janela de sua casa, na
Av. Ruy Barbosa, e receber o cumprimento, o abraço, o carinho dos amigos
e amigas que passavam por lá, ou procuravam a filha Aidée que, com suas
mãos hábeis costuram lindas roupas.
Outra pessoa que deixou saudade, foi José Hélio de Almeida (Pitão),
- que na fotografia aparece ao lado (D) do irmão Élson, também vítima de AVC, que nos deixou nesta última quinta-feira (18),
depois de ficar por quase seis meses internado para tratamento no Hospital
Santa Izabel, em Salvador.
Pitão era uma pessoa de senso crítico aguçado, irônico e com muita
história para contar, principalmente, do período da infância, quando foi
aluno da então Escola Paroquial São José, vendedor de jornais e revistas
trazidas para Euclides da Cunha pelo tio Antônio Souza Lima (Antônio de
Elias ou ‘seo’ Antônio da Casa Só Livro) e, mais tarde passou a responder
pela Casa Lotérica Boa Sorte.
Pitão era filho de dona Etelvina, mas que a maioria das pessoas a conhecem
como “loló”, atualmente, com 95 anos. As irmãs professoras Zenaide e
Walmira Carmezim são responsáveis pela Escolinha Santo Antônio, uma
excelente escola infantil e de ensino fundamental da 1ª a 4ª séries.
Élson Souza Lima (Elsinho), é sargento da reserva do Exército Brasileiro,
pessoa muito querida na caserna onde serviu na I Companhia de Infantaria,
em Paulo Afonso-BA, onde reside e trabalha como produtor de vídeos, casado
com a professora Ivone e pai de duas filhas maravilhosas Sofia e Samira.
Uma família pequena, porém, bem estruturada e harmônica.
Pitão era uma daquelas pessoas que entram para o anedotário e o folclore
da cidade, pelas suas posições ideológicas, envolvimento com os políticos,
críticas, ações e reações inesperadas, influência junto às autoridades,
principalmente, aquelas que gostavam de ler livros, jornais e revistas sem
ter que desembolsar alguns cruzeiros, cruzados e depois reais, a depender
da época daqueles planos monetários malucos do Governo Federal, até chegar
ao Plano Real. Era um grande orador.
Desportista fervoroso, torcedor do Esporte Clube Bahia, Vasco da Gama e
Santos, - Pitão era santista pelezista de quatro postados e, em Euclides
da Cunha participou da fundação e foi dirigente do Sport Club Euclidense,
o mais querido e popular time de futebol da cidade, fundado por Nouzinho
do Bujão, Delço Matias, Antônio Costa, Vavá sapateiro, Caboclinho, Charlão,
entre tantos desportistas, na década de 60.
Como árbitro de futebol, foi protagonista de vários episódios que
estarreceram torcedores e entrou para o anedotário e folclore do futebol
euclidense, e tudo em defesa do time do seu coração que, quando perdia,
Pitão simplesmente desaparecia da cidade, para fugir da gozação dos
adversários.
Certo dia, ao apitar um dos jogos do campeonato euclidense, validou um gol
que não aconteceu: o jogo estava muito difícil para o time que torcia e
aos quarenta minutos do segundo tempo, ao perceber que a partida
terminaria em zero a zero, - resultado que não favorecia o seu time de
coração, não titubeou e validou como gol, uma bola que o atacante de seu
time chutara de fora da grande área, no travessão do time adversário.
Foi um bafafá enorme causado pela torcida que viu o time prejudicado com a
marcação de um gol cuja bola não tocou o fundo da rede e nem ultrapassou a
linha de gol. O campo não tinha alambrado e a torcida ficava à beira do
“gramado” e às vezes, até dentro de campo mesmo.
Um torcedor mais afoito juntou-se aos jogadores do time prejudicado e em
voz uníssona, como num coral bem afinado, disse ao árbitro: “Pitão, a bola
não entrou. Então, por que você deu o gol?”.
A resposta estava na ponta da língua: “eu vi que não entrou; porém, o
lance foi tão bonito que eu resolvi premiar como gol. O árbitro aqui sou
eu, já marquei não volto a trás, pois correrei o risco de ficar
desmoralizado perante a torcida.” Respondeu.
Revoltados com a atitude do árbitro, torcedores do time prejudicado e
alguns jogadores partiram para cima e foram surpreendidos com mais uma
atitude inusitada do mediador do tumultuado jogo de futebol, quando,
inesperadamente, Pitão enfiou a mão no short que usava e sacou de uma
pistola de dois canos, calibre 22, também conhecida como dois tiros e uma
carreira, pois era municiada apenas, por dois projéteis.
Com a pistola na mão, gritou para os possíveis agressores: “venham felas
da puta pra vê o que o pitãozinho da goméia é capaz de fazer!” Acho que
até hoje tem torcedor correndo por ai. E como já passava de quarenta
minutos do segundo tempo, a partida foi dada como encerrada por falta de
segurança e prevaleceu o resultado, segundo o regulamento do campeonato.
Fã de Waldick Soriano, cantava as músicas quase todas de seu ídolo, bem
assim Nélson Gonçalves. A cerveja era sua bebida predileta e quando depois
de ingerir alguns copos, enrolava os companheiros fingindo beber ao levar
o copo à boca, porém, apenas cheirava a bebida.
Pitão tinha os bares certos que gostava de tomar uma cervejinha, e não
costumava passar de duas garrafas, sempre divididas com os amigos. Nunca
freqüentava ambientes com muita gente e muito barulho. Ao chegar pedia ao
garçom ou proprietário do bar, boteco, etc, da seguinte maneira: “psiu,
tem uma cervejinha bem gelada para o pitãozinho?... Então, traga logo.”
Era uma figura sensacional. E quando chegava alguém que ele não
simpatizava muito, a demora era pouca no local. Às Vezes, nem terminava de
tomar a cerveja toda.
A tática de cheirar a bebida ao invés de bebê-la era, na realidade, uma
técnica que usava para ouvir dos companheiros que gostavam de uma
cervejinha, segredos e confidências que só acontece quando o cara perde a
noção dos fatos e faz revelações que estão guardadas no subconsciente. Ai
Pitão ficava sabendo de muitas coisas que aconteciam em sociedade e eram
reservadas apenas, para algumas pessoas.
Irônico e divertido, - somente quando bebia ou fingia beber, ao ser
apresentado a um jogador de futebol amador, pelo amigo Braz, - outra
figura mestre em gozação, perguntou o nome do apresentado e teve como
resposta: Bunda. Chamam-me de bunda, respondeu o jovem.
Sarcástico e muito crítico respondeu com a mão no queixo e três dedos à
frente do nariz: Bunnnnnda... - e como se estivesse escondendo o riso,
completou: Hummm... é bastante sugestivo o seu nome. Detalhe; o rapaz
tinha quadris e nádegas avantajados. Ninguém agüentou e a gargalhada foi
geral.
Responsável, há mais de 15 anos respondia pela direção da Casa Lotérica
Boa Sorte, e quando o tio Antônio, que viajava semanalmente a negócios,
para Salvador e Feira de Santana, supria a ausência do mesmo, na Casa Só
Livro.
Acordava bastante cedo e também ia dormir nas primeiras horas da noite.
Político, não perdia oportunidade de mostrar que tinha poder de
influenciar junto a alguns políticos e autoridades, principalmente,
aquelas que liam livros, revistas e jornais e até saboreavam uma
maçanzinha, gratuitamente.
Nas campanhas políticas e até para direção de clubes de futebol e da Liga
Desportiva Euclidense atuava como lobista junto aos dirigentes e
associados com direito a voto. Fazia isso, quando simpatizava com o
candidato e sempre foi exitoso em sua missão. Tinha oratória fácil e
eloqüente, por isso costumava discursar nos comícios e nas reuniões que
participava.
Supersticioso, fazia o sinal da cruz quando cruzava com um gato preto, não
passava debaixo de escada e, ao adentrar a lotérica e na Casa Só Livro, o
fazia sempre com o pé direito na frente.
Gostava das coisas do candomblé, era, segundo ele, protegido dos orixás
Ogum (São Jorge guerreiro) e Oxum (Nossa Senhora da Conceição)... e até
fazia saudação e reverência em linguagem sincrética aos amigos simpáticos
às divindades e deuses africanos.
Às vezes nervoso, xingava todo mundo, mas logo se arrependia e fazia
agrados aos supostos ofendidos. Reservado, não gostava de ficar em
ambiente com muita gente e tumultuado. Arredio, quando menos se esperava,
Pitão já havia caído fora.
São tantos os causos atribuídos a José Hélio de Almeida, que não poderia
encerrar esta matéria que, com certeza vai fazer Ariosvaldo Nascimento (Lelê),
- um velho amigo de infância que há muitos anos reside em Tanquinho-BA, e
veio ao seu sepultamento, rir pra valer, juntamente com Tonho padaria.
Para encerrar com mais um caso
verdade, no sepultamento de um homem bastante
forte, as pessoas que conduziam o caixão tiveram dificuldade para subir a
ladeirinha que dá para o cemitério municipal, pois estavam cansadas e a
alça da urna funerária apertava bastante o punho e quem já havia segurado
o caixão não queria pegá-lo novamente.
O defunto pesou bastante e o caixão começou a guinar para o lado esquerdo,
como se não quisesse seguir para o destino final. Inconformado com aquela
situação, Pitão - que já havia tomado umas cervejinhas aproximou-se do
caixão e disse: “não adianta querer voltar. Você vai levar terra nos
peitos, daqui a pouco!”
Aquele momento de tristeza e dor transformou-se em risos e o caixão
pareceu ter ficado mais leve e chegou sem dificuldades ao destino final.
Nesta terça-feira, familiares e muitos amigos e amigas foram à Igreja
Matriz de Nossa Senhora da Conceição e participaram da celebração da missa
de sétimo dia de ação de graças pelas almas de dona Gemira e Pitão.
Às pessoas amigas que nos deixaram (Gemira Santos Costa – dona Gemira, e
José Hélio de Almeida - Pitão) que, na mesma semana passaram para o plano
superior, cada uma com a sua história para o engrandecimento de nossa
cidade, pelo trabalho, contribuição social, cultural, etc.
Aos familiares amigos Aidée, Eliezer, Emílio, Antônio, Aidinha e Aidil,
(da parte de dona Gemira) e dona Loló, Walmira, Zenaide, Élson (da parte
de Pitão), a homenagem do site euclidesdacunha.com, as duas grandes almas
que agora nos olham de lá de cima, em um bom lugar.
Agradecimento especial ao sargento EB Élson Souza Lima, pelas imagens de
arquivo cedidas gentilmente.
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